MESTRES DE AMANHÃ [1]
Anísio
Teixeira
Creio,
no exame do tema que nos ocupa, que não me cumpre exprimir apenas ansiedades e
esperanças a respeito dos mestres de amanhã, mas procurar antecipar, em face
das condições e da situação de hoje, o que poderá ser o mestre dos dias
vindouros. E entre os mestres buscarei, sobretudo, caracterizar os mestres do
ensino comum, do ensino destinado a todos, ou seja, na fase contemporânea, os
mestres da escola primária e da escola secundária. É o mestre da escola elementar
e da escola secundária que está em crise e se vê mais profundamente atingido e
compelido a mudar pelas condições dos tempos presentes. E por quê? Porque
estamos entrando em uma fase nova da civilização chamada industrial, com a
explosão contemporânea dos conhecimentos, com o desenvolvimento da tecnologia e
com a extrema complexidade conseqüente da sociedade moderna.
Na
realidade, o nosso esforço pela educação do homem, até muito recentemente, não
chegou a ultrapassar os objetivos de prepará-lo para uma sociedade muito mais
singela do que a sociedade moderna. Tomando o exemplo das sociedades
desenvolvidas, que chegaram, como no caso da América do Norte, a oferecer
educação a todos até os dezoito anos, a escola elementar e a secundária
constituiram-se em escolas intelectualmente desambiciosas, destinadas a
oferecer uma educação capaz de formar os jovens para o convívio político,
social e econômico de uma sociedade de trabalho competitivo, mas ao que se
acreditava relativamente singela e homogênea. A criação mais original da
sociedade americana nesse campo foi a da comprehensive school de nível
secundário, com a flexibilidade dos seus currículos e a concentração na mesma
escola de alunos os mais diversos nas aptidões, nas opções de estudo, na
inteligência e nos objetivos escolares. Esta escola, que resistiu ao severo
estudo e análise de Conant, representa, na realidade, uma inovação em seus
aspectos fundamentais. Constitui uma antecipação, se considerarmos que sua
filosofia importa reconhecer certa unidade da cultura contemporânea, a despeito
de sua aparente diversidade, e a equivalência das diferentes carreiras a que se
iriam devotar os seus alunos.
Correta,
assim, na sua estrutura, não creio, entretanto, que tenha conseguido realmente
oferecer uma educação à altura do desafio dos nossos tempos. O que os nossos
tempos pediam era uma forte educação intelectual para o jovem moderno, a
despeito das diferentes aptidões que possuísse, dos diferentes interesses que
revelasse e das diferentes carreiras a que se destinasse. A escola compreensiva
reuniu todos os jovens na mesma escola e, para lhes dar a impressão de uma
educação comum, diluiu o conteúdo dos diferentes programas, a fim de lhes
emprestar uma equivalência, que só por essa diluição se fazia verdadeira.
Entrementes,
que se passava com a civilização contemporânea? Entrava ela em fase de
desenvolvimento científico até certo ponto inesperado, levando-a na indústria à
automação, na vida econômica a um grau espantoso de opulência e na vida
política e social a desenvolvimento de meios de comunicação de tal extensão e
vigor que os órgãos de informação e de recreação se viram subitamente com o
poder de condicionar mentalmente o indivíduo, transformando-o em joguete das
forças de propaganda e algo de passivo no campo da recreação e do prazer. O
desenvolvimento contemporâneo no campo dos processos de comunicação já foi
comparado ao da descoberta da imprensa, que gerou também, conforme sabemos, um
período de certa degradação na difusão do conhecimento semelhante ao que se observa
hoje com a utilização dos meios de comunicação em massa. A verdade é que cada
meio novo de comunicação, ao surgir, não produz imediatamente os resultados
esperados, mas, muitas vezes, a difusão do que há de menos interessante, embora
mais aparentemente popular, na cultura comum. Não é apenas isto. Cada meio novo
de comunicação alarga o espaço dentro do qual vive o homem e torna mais
impessoal a comunicação, exigindo, em rigor, do cérebro humano compreensão mais
delicada do valor, do significado e das circunstâncias em que a nova
comunicação lhe é feita.
Se
partirmos do período da simples comunicação oral de pessoa a pessoa que se
conheçam mutuamente no pequeno meio local, para a comunicação com o estranho e
depois para a comunicação escrita ainda entre pessoas que se conheçam
(correspondência) e, a seguir para a comunicação escrita pelo texto e livro e
pelo jornal, ainda locais, e, afinal, pelo telégrafo, pelo telefone, pelo
cinema, pelo rádio, pela televisão, pela comunicação estendida a todo o planeta
que faz subitamente o homem comum não apenas o habitante de sua rua, sua
cidade, seu Estado, sua nação, mas literalmente de todo o planeta e
participante de uma cultura não apenas local e nacional, mas mundial, podemos
ver e sentir o grau de cultivo mental necessário para lhe ser possível submeter
a informação, que lhe é assim trazida de todo o mundo, ao crivo de sua própria
mente, a fim de compreendê-la e absorvê-la com o mesmo sentido de integração
com que recebia a comunicação local e pessoal do seu período paroquial de vida.
Não somente, a comunicação se fez assim universal no espaço, como também, com
os novos recursos técnicos, se estendeu através do tempo, podendo o homem em
uma simples sessão de cinema visualizar as civilizações ao longo da história,
como sucede nos grandes espetáculos modernos em que a cultura antiga é
apresentada de forma nem sequer sonhada pelos mais ambiciosos historiadores do
passado.
Toda
essa imensa revolução dos meios de comunicação não poderia deixar de criar, em
sua fase inicial, antes a confusão do que o esclarecimento, sobretudo porque
esses meios não foram sequer conservados na posse dos grupos responsáveis pela
educação do homem, como a escrita e a imprensa, por exemplo, de certo modo se
mantiveram, mas se fizeram recursos para a propaganda e a diversão
comercializada, quando não para o condicionamento político e ideológico do
homem.
A
educação para este período de nossa civilização ainda está para ser concebida e
planejada e, depois disto, para executá-la, será preciso verdadeiramente um
novo mestre, dotado de grau de cultura e de treino que apenas começamos a
imaginar. Desde que surgiu a cultura escrita na história humana jamais faltaram
guardiãs, tanto quanto possível, competentes, para conservá-la e defender-lhe,
por vezes excessivamente, a sua pureza. Quando afinal surgiram as
universidades, o engenho humano tudo fez para resguardar-lhes a liberdade e a
independência, a fim de que o saber humano pelos que soubessem fosse conservado
e cultivado. Ao ampliar-se a universidade pelas escolas de cultura comum para
todos, o preparo do mestre - ou seja, o guardião e transmissor da cultura - se
fez até o começo do nosso século com razoável proficiência. Tanto quanto
possível era ele o transmissor de uma cultura cuja significação e limites
conhecia e, sobretudo, era o mais importante transmissor dessa cultura, estando
em seu poder comandar até certo ponto a formação do educando.
Com
a expansão dos meios de comunicação, o mestre perdeu esse antigo poder,
passando a ser apenas um contribuinte para a formação do aluno, que recebe, em
relativa desordem, por esses novos meios de comunicação, imprensa, rádio e
televisão, massa incrível de informações e sugestões provenientes de uma
civilização agitada por extrema difusão cultural e em acelerado estado de
mudança. A Universidade conservou, a despeito de tudo, um certo controle dessa
cultura extremamente difusa e em explosiva mudança, graças à alta qualidade dos
seus professores e à vigorosa institucionalização de sua independência e sua
liberdade, mas as escolas de cultura geral do homem comum ficaram com os
mestres preparados para ministrar a cultura muito mais simples e paroquial do
século passado. Bem sei que o preparo destes mestres se faz cada vez mais longo
e nos países mais desenvolvidos já está francamente exigindo graus
universitários. A tarefa, entretanto, é bem mais difícil e complexa.
Na
Inglaterra, fez-se uma experiência de ensino universitário - o colégio
universitário de Keele, que me parece merecer aqui uma referência. Como
sabemos, o University College of North Staffordshire surgiu em 1950 com a
intenção de criar um tipo novo de ensino universitário. Não irei descrever em
detalhe a experiência de Keele, mas apenas comentar o primeiro ano de estudos
desse novo colégio universitário, que constitui um exemplo do tipo global de
cultura que seria necessário ao homem moderno. O propósito desse ano inicial,
chamado de fundamentos, foi o de rever, discutir e ilustrar os fundamentos, a
herança, as conquistas e os problemas da civilização ocidental. Tomo do
relatório sobre essa experiência a seguinte formulação dos objetivos desse
primeiro ano de estudos. O curso começa "levando os estudantes, pela
contemplação dos céus, à luz da astronomia e da física moderna, a um sentimento
de espanto, maravilha e beleza. Não somente o estudante de arte, mas também o
cientista vê sob essa nova luz a fé e os métodos do físico, numa súmula do
progresso científico a partir de Kepler, Galileu e Newton até as excitantes
especulações da moderna cosmologia. Acompanhando os passos da inquirição humana
desde a indagação de Olbert "Por que é a noite escura?" até a teoria
da criação contínua, sentir-se-á o estudante a reproduzir essa extraordinária
aventura da mente humana no seu esforço de imaginar e descobrir a natureza do
universo. Segue-se o geólogo com a descrição da história da terra durante os
3.000.000.000 de anos ou mais que antecederam o aparecimento do homem. O
geógrafo, depois, estuda o clima e os fatores do meio ambiente. O biólogo
introduz os seres vivos e analisa as teorias da origem e a evolução do homem.
Já aí os estudantes terão atingido a dose de humildade suficiente para apreciar
as conquistas das primeiras civilizações, que lhe serão apresentadas pelos
professores de saber clássico, pelo filósofo, pelo teólogo e pelo historiador.
Daí prossegue o curso introduzindo o estudante na consideração das
característicos e dos problemas da civilização ocidental numa era industrial,
conforme os vêem os historiadores, os geógrafos, os cientistas políticos, os
educadores e os economistas. A perspectiva já então é a dos dias de hoje,
projetada desse fundo histórico, a fim de levar o estudante a sentir e apreciar
os muitos e sérios problemas que hoje nos defrontam. A terceira parte do curso
se detém nas realizações criadoras do homem - a língua, a literatura, as artes,
a música, a arquitetura, as matemáticas, as ciências e a tecnologia e, por fim,
o próprio homem e sua crença serão estudados por filósofos, psicólogos,
sociólogos, teólogos e biólogos."
Atrevo-me
a considerar que este deverá ser amanhã o programa de educação comum do homem
moderno e não apenas, como em Keele, a introdução aos estudos de nível
superior. Com os recursos técnicos modernos, estamos em condições de oferecer a
cada jovem, antes de terminar o nível secundário de estudos um quadro da
cultura contemporânea, desde os seus primórdios até os problemas e
complexidades dos dias presentes. Não teremos todos os professores
especializados com que conta Keele para a sua experiência, mas, com os recursos
da televisão, do cinema e do disco podemos levar todos os jovens a ver e ouvir,
ou, pelo menos, a ouvir, esses especialistas e, a seguir, com o professor da
Classe, desdobrar, discutir e completar as lições que grandes mestres desse
modo lhe tenham oferecido. Mesmo assim, entretanto, será imensa a tarefa do
professor secundário e grande deve ser o preparo, para que possa conduzir o
jovem nessa tentativa de dar à sua cultura básica a largueza, a segurança e a
perspectiva de uma visão global do esforço do homem sobre a terra.
Os
meios modernos de comunicação fizeram do nosso planeta um pequenino planeta e
dos seus habitantes vizinhos uns dos outros. Por outro lado, as forças do
desenvolvimento também nos aproximaram e criaram problemas comuns para o homem
contemporâneo. Tudo está a indicar que não estamos longe de formas
internacionais de governo. Se a isto juntarmos a explosão de conhecimentos e as
mudanças que os novos conhecimentos, com as suas conseqüências tecnológicas,
estão a trazer, podemos imaginar até que ponto as forças do costume, dos
hábitos e das velhas crenças e preconceitos vão ser destruídas e quanto vai o
homem depender de sua cultura formal e consciente, de seu conhecimento
intelectual, simbólico e indireto, para se conduzir dentro da nova e
desmesurada amplitude de sua vida pessoal. São, portanto, de assustar as
responsabilidades que aguardam o mestre de amanhã. Sabemos o que se conseguiu,
no passado, com a educação de grupos seletos de estudantes. A nossa tarefa é
hoje muito mais difícil. Primeiro, porque precisamos fazer algo de semelhante
para todos e não apenas para alguns e segundo porque já não estaremos
ministrando a cultura clássica, mas a complexa, variada e, sob muitos aspectos,
abstrusa cultura científica moderna.
Diante
dos novos recursos tecnológicos, ouso crer ser possível a completa reformulação
dos objetivos da cultura elementar e secundária do homem de hoje e, em
conseqüência, de alterar a formação do mestre para essa sua nova tarefa. Que
haverá já hoje que nos possa sugerir o que poderá vir a ser a escola de amanhã?
Perdoem-me que lhes lembre as transformações operadas nos grandes
empreendimentos que dirigem a informação e as diversões modernas: a imprensa, o
cinema, o rádio e a televisão. Entregues à iniciativa privada e dominada pelo
espírito de competição, o jornal, a revista, a produção de filmes e as estações
de rádio e de televisão tornaram-se grandes serviços técnicos e desenvolveram
tipos de profissionais especializados, dotados de extrema virtuosidade, que se
empenharam em se pôr à altura dos recursos tecnológicos e do grau de expansão
da cultura moderna. Algo de semelhante será o que irá suceder com a escola, com
a classe e com o professor. Se a biblioteca, de certo modo, já fizera do mestre
um condutor dos estudos do aluno e não propriamente o transmissor da cultura,
os novos recursos tecnológicos e os meios audiovisuais irão transformar o
mestre no estimulador e assessor do estudante, cuja atividade de aprendizagem
deve guiar, orientando-o em meio às dificuldades da aquisição das estruturas e
modos de pensar fundamentais da cultura contemporânea de base científica em
seus aspectos físicos e humanos. Mais do que o conteúdo do conhecimento em
permanente expansão, cabe-lhe, com efeito, ensinar ao jovem aprendiz a aprender
os métodos de pensar das ciências físico-matemáticas, biológicas e sociais, a
fim de habilitá-lo a fazer de toda a sua vida uma vida de instrução e estudos.
Talvez
se possa dizer, embora represente uma grande simplificação, que a educação até
há pouco tempo oferecida pela escola não passou, no nível elementar, da
aprendizagem das artes de ler e escrever, como instrumento de comunicação e de
trabalho, seguida de uma iniciação medíocre à vida cívica e política de sua
nação; no nível secundário, do preparo do adolescente para as ocupações que
requerem certo nível técnico e para a continuação dos seus estudos em nível
superior; e, no nível superior, do preparo do profissional de nível superior e
o do scholar ou pesquisador. Fora disto, há que notar que as
universidades se constituíram elas próprias centros de pesquisa, de descoberta
do conhecimento e de sua expansão. Ora, somente este grupo último de
pesquisadores está efetivamente de posse dos instrumentos e dos objetivos da
cultura científica em que estamos imersos e que nos conduz, sem dela termos
real e efetiva consciência. O próprio scholar e pesquisador, embora seja
o maior contribuinte dessa cultura moderna, só raramente tem dela consciência
adequada, pois o grau de especialização do seu trabalho o obriga a tal
concentração de esforço e de interesse, que lhe dificulta se não impede a visão
global dessa cultura. O fato, contudo de estar mais empenhado em descobrir, em
aumentar o saber, do que no saber existente propriamente dito, fá-lo o que há de
mais próximo em nossa sociedade do que deveria ser cada um dos membros dessa
sociedade. Longe de mim julgar possível que cada um de nós venha a ser um
pesquisador no sentido acadêmico. Nem seria possível, nem resolveria a
dificuldade da sociedade contemporânea.
De
certo modo, o que estou a insinuar é talvez até mais amplo, embora não me
pareça tão difícil. Se a experiência de Keele pode constituir um exemplo do que
se deveria fazer para dar ao cidadão do nosso tempo a weltanschauung da
cultura contemporânea, convém recordar que isto representaria somente a
aquisição de uma visão adequada ao nosso tempo. Embora extremamente importante,
esta visão não lhe bastará, se dela não emergir a atitude e o propósito
profundos de se fazer um eterno estudante, cujo interesse permanente e vivo
seja o de aprender sempre e mais. E nisto lembrará ele o pesquisador. Mas,
enquanto este é um profissional empenhado em um pequeno campo de conhecimento e
devotado a ampliá-lo, o cidadão comum é um homem comum empenhado em compreender
e em agir cada vez mais lucidamente e mais eficientemente em sua ocupação e em
sua vida global, pois lhe cumpre sentir-se responsável pela sua sociedade.
Acaso
já refletimos que, se considerarmos utópica essa aspiração, teremos lavrado a
nossa condenação à civilização científica que o homem está criando, mas será
incapaz de dirigir e comandar? O que nos leva a considerar utópica esta
imaginada integração do homem com a sua criação científica é a situação ainda
dominante na educação oferecida pela escola.
H.
G. Wells, um dos reconhecidos profetas dos primeiros tempos de nosso século,
proclamou, na década dos vinte, que nos achávamos então em um páreo entre
educação e catástrofe. Já na outra década venceu a catástrofe, de que somente
agora parece vamos emergindo. Nosso otimismo, entretanto, não pode ser grande,
pois, se sentimos nos entendimentos recentes um alvorecer de sabedoria
política, o que por certo nos conforta, por outro lado, no campo da educação,
cumpre-nos registrar apenas alguns significativos progressos no preparo de
novos cientistas. Na educação comum do homem comum os progressos são os mais
modestos. O homem comum está caminhando para ser o escravo como o entendia
Aristóteles, ou seja, o homem que está na sociedade, mas não é da
sociedade. O progresso científico está na tela e conduz o homem nenhum de nós
sabe para onde. Ou melhor, todos sabemos, pois ninguém desconhece que, se a
educação é cada vez mais fraca, o anúncio e a propaganda são cada vez mais
fortes e nossa sociedade - sobretudo nos países em que já se fez afluente - é
uma sociedade cujo objetivo se reduz ao de consumir cada vez maiores
quantidades de bens materiais. Conseguimos condicionar o homem para essa
carreira de consumo, inventando necessidades e lançando-o num delírio de busca
ilimitada de excitação e falsos bens materiais.
Ora,
se o anúncio logrou obter isto, foi porque os meios de influir e condicionar o
homem se fizeram extremamente eficazes. Não será isto uma razão para não
considerar utópico o nosso desejo de formar um homem capaz de ser responsável
pela sua sociedade e não o seu joguete, ou o seu escravo no sentido
aristotélico?
Para
isto, ouso pensar, o problema consistiria em formar um mestre, esse mestre de
amanhã, que fosse um pouco do que já são hoje certos jornalistas de revistas e
páginas científicas, um pouco dos chamados por vezes injustamente
popularizadores da ciência, um pouco dos cientistas que chegaram a escrever de
modo geral e humano sobre a ciência, um pouco dos autores de enciclopédias e
livros de referência e, ao mesmo tempo, mais do que tudo isto. O mestre de
amanhã teria, com efeito, de ser treinado para ensinar basicamente as
disciplinas do pensamento científico, ou seja, a disciplina do pensamento
matemático, a do pensamento experimental, a do pensamento biológico e a do
pensamento das ciências sociais, e com fundamento nessa instrumentação da
inteligência contribuir para que o homem ordinário se faça um aprendiz com o
desejo de continuar sempre aprendendo, pois sua cultura não só é intrinsecamente
dinâmica, mas está constantemente a mudar-lhe a vida e a obrigá-lo a novos e
delicados ajustamentos.
Por
que não será impossível este mestre? Porque são extraordinários os recursos
tecnológicos que terá para se fazer um mestre da civilização científica,
podendo para isto utilizar o cinema como forma descritiva e narrativa e a
televisão como forma de acesso a mestres maiores que ele. O mestre seria algo
como um operador dos recursos tecnológicos modernos para a apresentação e o
estudo da cultura moderna, e como estaria, assim, rodeado e envolvido pelo
equipamento e pela tecnologia produzida pela ciência, não lhe seria difícil
ensinar o método e a disciplina intelectual do saber que tudo isso produziu e
continua a produzir. A sua escola de amanhã lembrará muito mais um laboratório,
uma oficina, uma estação de televisão do que a escola de ontem e ainda de hoje.
Entre as coisas mais antigas, lembrará muito mais uma biblioteca e um museu do
que o tradicional edifício de salas de aulas. E, como intelectual, o mestre de
amanhã, nesse aspecto, lembrará muito mais o bibliotecário apaixonado pela sua
biblioteca, o conservador de museu apaixonado pelo seu museu e, no sentido mais
moderno, o escritor de rádio, de cinema ou de televisão apaixonado pelos seus
assuntos, o planejador de exposições científicas, do que o antigo mestre-escola
a repetir nas classes um saber já superado.
Não
se diga que estou a apresentar observações que somente se aplicam às sociedades
afluentes. O caso dos países subdesenvolvidos não é diverso, porque os recursos
tecnológicos da propaganda e do anúncio também já lhe chegaram e não lhe será
possível repetir a história dos sistemas escolares mas adaptar-se às formas
mais recentes da escola de hoje. Está claro que concretamente seu problema é diverso.
A sua luta não é ainda para comandar a produtividade, mas para chegar à
produtividade. Paradoxalmente, entretanto, o espírito do anúncio e da
propaganda lhe chegam antes de haver podido mudar sua estrutura social para se
fazer uma sociedade científica de alta produtividade. E, por isto mesmo, o
anúncio ainda é mais tragicamente irônico. Somos pela propaganda condicionados
para desejar o supérfluo, para atender a necessidades inventadas, antes de
haver atendido nossas reais necessidades.
Todas
essas considerações nascem de uma atitude de aceitação do progresso científico
moderno, de aceitação das terríveis mudanças que este progresso está impondo à
vida humana e da crença de que ainda não fizemos em educação o que deveria ser
feito para preparar o homem para a época a que foi arrastado pelo seu próprio
poder criador. Todo o nosso passado, nossos mais caros preconceitos, nossos
hábitos mais queridos, nossa agradável vida paroquial, tudo isto se levanta
contra o tumulto e a confusão de uma mudança profunda de cultura, como a que
estamos sofrendo. A mocidade contudo está a aceitar esta mudança, é
verdade que um tanto passivamente, mas sem nada que lembre a nossa
inconformidade. A mudança, todos sabemos, é irreversível. Só conseguiremos
restaurar-lhe a harmonia, se conseguirmos construir uma educação que a aceite,
a ilumine e a conduza num sentido humano.
O
desafio moderno é, sobretudo este: conseguir que todos os homens adquiram a
disciplina intelectual de pensamento e estudo que, no passado, conseguimos dar
aos poucos especialistas dotados para essa vida intelectual. O conhecimento e a
vida adquiriram complexidade tamanha que só uma autêntica disciplina mental
poderá ajudá-lo a se servir da ciência, a compreender a vida em sua moderna
complexidade e amplitude e a dominá-la e submetê-la a uma ordem humana. Os
mestres do futuro terão de ser familiares dos métodos e conquistas da ciência e
desde a escola primária iniciar a criança e depois o adolescente na arte sempre
difícil e hoje extremamente complexa de pensar objetiva e cientificamente, de
utilizar os conhecimentos que a pesquisa lhe está a trazer constantemente e de
escolher e julgar os valores, com que há de enriquecer a sua vida neste planeta
e no espaço que está em vésperas de conquistar. Reunindo, assim, funções de
preceptor e de sacerdote e profundamente integrado na cultura científica, o
mestre do futuro será o sal da terra, capaz de ensinar-nos, a despeito da
complexidade e confusão modernas, a arte da vida pessoal em uma sociedade
extremamente impessoal.
[1]
Extraído de
TEIXEIRA, Anísio. Mestres de amanhã. Revista Brasileira de Estudos
Pedagógicos. Rio de Janeiro, vol. 40, nº 92, out./dez. 1963. P.10-19
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